Era necessário eu sentir-me importante para ti e em ti e não foi isso que senti. Os últimos dias foram um turbilhão. Parecia que eu ia aguentar mais um bocadinho e mais outro até que, mesmo sem ainda ter percebido isso, disse que não aguentava. E eu sei que estou a ser verdadeira comigo e que quando digo que não consigo mais puxar um barco sozinha é porque não consigo. Na verdade, a última semana aconteceu porque eu ainda tinha uma réstia de esperança, porque engoli a mágoa e o desespero e disse eu tento. Não sabia quando. Não sabia como. Sabia que não estava preparada para desistir de uma pessoa que era tanto em mim. Que é tanto em mim. Mas isso, agora, não vale de nada. Infelizmente para mim, sobretudo, que estou prestes a rebentar de tristeza porque eu merecia ouvir um eu tento como tu tentaste. Porque se eu estava magoada e extremamente zangada com todas as palavras trocadas nesse dia e nos anteriores, porque se eu estava prestes a deixar de conversar contigo e, a pedido teu, coloquei tudo isso para trás das costas e ergui a cabeça, pelos tempos bons que passamos, tu devias ter tido a mesma atitude agora. É que isto trata-se de atitudes. Era necessário que me mostrasses que era possível dar a volta a isto, era necessário que, por uma vez, fosses tu a pegar em tudo o que nos sustentou e que poderia vir a sustentar. E eu não percebo porque é que eu não mereço isso. Não percebo porque é que eu mereço sentir que dei tudo de mim a uma pessoa que não fez o mesmo, quando chegou a altura. Não percebo onde é que está a culpa que dizes que tenho, que guardo, porque não me sinto culpada. Sinto só uma grande angústia. Sinto, ainda mais forte em mim que nos últimos dias, que não sou importante para ti. Se o fosse, já tinhas confiado em mim da mesma forma que eu confiei em ti e não haveria sempre um fosso entre nós que me permitisse sentir mais insegurança. Porque este foi o motor principal de quase todas as minhas crises mais recentes. Se fosse importante para ti, tinhas falado comigo, no sábado, quando eu te disse para me deixares em paz. Tinhas. Sem desculpas nem tretas, tinhas vindo ter comigo como eu fui ter contigo. Tinhas dito boa noite, como eu disse, mais tarde. Se eu fosse importante para ti tinhas dito que gostavas de mim, nem que fosse só isso. Disseste? Não. Claro que não disseste. Porque é mais fácil dizer que estás a respeitar o que eu peço do que lutar mesmo quando eu te digo que não quero. Porque é mais fácil quebrar duas correntes em mim - a da confiança e a do comportamento - que puxar-me para o teu lado. É mais fácil não abrires os olhos e não me conheceres do que saberes lidar comigo. É que eu não compreendo. Tu ficavas. O meu maior orgulho na nossa amizade é que nós ficávamos. Depois de qualquer troca azeda de palavras nós permanecíamos. Quando chega à tua vez de puxar um bocadinho por mim eu não mereço um eu tento franco e sincero? Mereço um destruíste a vontade que construíste em mim? Mereço um é culpa tua? Mereço ler um enquanto tu quiseres, eu estarei aqui... dito por ti, para uma pessoa que te magoou, mas para mim não? Mesmo depois de tudo o que vivemos uma com a outra? Mereço mesmo tudo isto em vez de fazeres o mesmo por mim? Mereço mesmo sentir-me arrasada por dentro? Sentir que as lágrimas vão ser parte integrante de mim até colocar tudo o que vivemos numa parte recôndita do meu cérebro? Estou cansada. Estou mesmo cansada de tentar perceber porque é que eu lutei e porque é que tu não podes lutar por mim. Porque não chego a qualquer conclusão. A única coisa que tenho são as palavras que trocamos e que me fazem perceber o cenário que é agora o que tenho para mim. Eu perdi-te porque não aguentava mais lidar com a falta de confiança - por teres dito alguma coisa que sempre me perseguiu - que me assaltava nos momentos de maior insegurança. Eu perdi-te, sim. Mas tu perdeste-me porque eu não vou saber o caminho de volta para ti enquanto tu não me deres um sinal de que vais ser tu a lutar, basta um eu tento. Duas palavras que dizem tanto. Eu mereço um eu tento. Tal como tu mereceste.