«Eu era a única espectadora na tua peça de teatro, era a única que ainda acreditava em ti e se dava ao trabalho de espreitar as tuas andanças. Que te dava os parabéns pelas tuas conquistas, que ainda conseguia ter uma réstia de esperança de que aí dentro existia um lado bom. Eu ia retirar o teu lado bom do teu coração e ia mostrá-lo ao mundo. Eu ia conseguir.
Até perceber que não; não ia conseguir coisa nenhuma. Tudo o que tínhamos vivido era apenas uma parte da peça de teatro que tu construíste. Foste atriz todo o tempo em que nos cruzamos na vida uma da outra. Fizeste com que eu assistisse a uma peça inexistente porque em ti nunca houve desejo de mudança verdadeira. E no agora eu sofro porque pensava que tudo isto se tinha afastado da minha mente e do meu coração. Pensava que era parte da página do passado que tinha virado e tinha escondido o livro. Da minha vista. Não. Não escondi. Deixei-o na prateleira mais próxima da minha memória, tinha que ter a certeza que não voltava onde me tinhas colocado. Fui ou sou tão atriz como tu quando digo (ou dizia) que ultrapassei tudo isto. Engano os outros e engano-me a mim mesma. Ou enganava. Agora já não. Não me quero enganar mais. Não quero enganar mais ninguém. Preciso de ajuda. Preciso de toda a ajuda possível. Preciso de sair desta espiral que me faz ver-te, ouvir-te, imaginar-te em todo o lado. Precisava de perceber porque é que decidiste retirar parte da máscara que utilizaste até que ta arranquei e fizeste nova investida na minha vida. O que queres de mim agora? Grito-te em silêncio porque não desejo falar-te. Não desejo ver-te mais do que vejo nas memórias que me assaltam na noite fria. Vai embora de vez. Afasta-te de mim. Deixa-me em paz, deixa-me viver sem ti. Não me tortures mais. Eu fui embora. A pessoa que mais acreditou em ti, a pessoa que errou e que pediu desculpa, a pessoa que te chamou melhor amiga. Tenho a certeza que eu fui a única pessoa que te amou de verdade. Fui embora. Vai embora também. Não regresses. A tua peça de teatro acabou há muito tempo.»
Supostamente, isto devia deixar-me beeeeeeeeem melhor. Não deixou. Não deixou. Mesmo nada.